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O lesbianismo político é a politização da identidade lésbica. Surge nos 70 no contexto do Movimento de Liberação de Mulheres e com os primeiros ensaios de um movimento lésbico autônomo. Nos 70, com as RadicaLesbians, que escrevem o manifesto "A mulher que se identifica com a mulher", passam a conferir à lesbianidade um caráter político, e nomear a Heterossexualidade como um regime também político de opressão.

Assim o lesbianismo político considera lesbianidade mais que uma identidade, um ato político de resistência (1). Visibiliza que as lésbicas não são uma orientação sexual, mas um coletivo político de resistência, que são resistentes à Heterossexualidade e a apropriação masculina dentro do Patriarcado. Resistentes à constituição das fêmeas dentro da categoria mulher.(2) Desmistificando a idéia sexológica de que lésbicas são uma orientação sexual tal qual a heterossexual, afirma que a heterossexualização das mulheres, assim como a feminização, é um processo político instituído desde que nascem, uma programação e um treinamento para a submissão e a escravidão dentro do contrato sexual (3). Que a produção de mulheres é o fim da Heterossexualidade como regime político, treinando para as características que tornam possível a expropriação do seu trabalho (re)produtivo: maternidade, feminilidade, e desejo heterossexual.

Sheila Jeffreys chama ao Desejo Heterossexual como o Erotismo da Desigualdade. O Desejo Heterossexual é uma produção social, um treinamento possível por muitas mídias, cultura e transmissão familiar, pornográfica, social, em que as mulheres aprendem a erotizar a própria subordinação. As RadicaLesbians afirmam que na verdade, a erotização e o apreço das mulheres aos homens se deve a uma identificação com seu poder, um processo muito semelhante à colonização, no qual aprendemos a nos identificar mais com aqueles que possuem poder e recursos, desejar ser como estes, a nos identificar com nossas iguais. Assim, as RadicaLesbians afirmam que as lésbicas são 'mulheres que se identificam com as mulheres', à diferença das heterossexuais, que se identificam e querem ser reconhecidas e aprovadas pelos homens.

As lésbicas feministas (lésbicas políticas) estabelecem assim, o problema da Heterossexualidade e Feminismo: afirmam que ambos são paradoxais ou que o Heterofeminismo possui um caráter reformista, de querer reconhecimento e igualdade com os homens e assimilação ao Patriarcado. Afirmam que é um dever ético de toda feminista desprogramar sua heterossexualidade e fazer a escolha política e ética por outras mulheres, de modo a construir resistência feminista.

As lésbicas políticas afirmam que é possível a todas desprogramar sua heterossexualidade e aprender a erotizar e estar com mulheres, sendo um processo de recuperação e descolonização. Afirmam que toda mulher pode e deve ser lésbica, e que ao fazê-lo, estão atacando frontalmente e diretamente o Heteropatriarcado.

Sua força política é evidenciar a heterossexualidade como sistema político, opressora em relação às mulheres e à potencialidade do lesbianismo para nossa liberdade e autonomia de todas mulheres.

Críticas

Algumas lésbicas consideram o lesbianismo político como uma colonização da lesbianidade. Assim, lesbianismo político passou a ser sinônimo de lésbicas ex-heterossexuais que fizeram a escolha de ser lésbicas, desconstruindo a heterossexualidade prévia, mesmo que o conceito tenha sido enunciado por lésbicas que teriam sido lésbicas desde sempre, sem necessariamente ter chegado à lesbianidade por uma noção feminista.

O que lésbicas lifelong se queixam é de que essa noção de lesbianidade é muito distinta de como lésbicas que viveram lesbianidade dissociada de um processo de desprogramação a vivem e a vêem politicamente, e que o discurso de lésbicas políticas muitas vezes 'apaga da existência' essas lésbicas, além de trazer leituras e olhares heterocentrados. Como por exemplo, foram notórias as críticas de lésbicas políticas às butchs, lésbicas não femininas, lidas como masculinas. As lésbicas políticas identificavam prontamente estas lésbicas como reproduzindo papéis e masculinidade, sem entender que desde crianças, muitas lésbicas nunca exibiram qualquer traço de feminilidade ou apreço a atividades femininas, e que isso não constitui uma reprodução da masculinidade. Também falharam em entender como os códigos butch-femme foram um recurso de sobrevivência da comunidade lésbica antes de um movimento feminista visível. A vestimenta foi uma estratégia de visibilização e de comunicação nesta comunidade, e de forma de encontrar e transmitir mensagens entre mulheres que se interessam entre si. É preciso portanto, um estudo mais aprofundado do que significa o que é lido como 'jogo de papéis' e da onde nasce a figura da lésbica 'masculina'. Esta foi uma forma de visibilidade e um signo de resistência e coragem em contextos de extrema lesbofobia, criminalização da mesma, perseguição e invisibilidade.


Outra crítica surgida e que tornou o termo 'temido' dentro da comunidade lésbica foi o fato de que muitas mulheres com vivência heterossexual passaram a se denominar 'lésbicas' com base no conceito de continuum lésbico, e se afirmarem lésbicas mesmo possuindo uma relação estável, relações ocasionais ou sexo com homens. O termo assim, se tornou meio maldito na comunidade lésbica, por lembrar uma carga de invisiblização e apropriação identitária de grupos oprimidos, que necessitam desta identidade para se organizar políticamente e produzir sentidos próprios sobre esta vivência, e não permitir que outros a definam.

(1) Cheryl Clarke, "Lesbianismo: um ato de resistência"

(2) Monique Wittig: "A categoria de sexo"

(3) Carole Pateman: "O Contrato Sexual"