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As bruxas foi uma figura produzida pela Idade Média, numa política de matança de mulheres chamada Inquisição. A Inquisição fez mais vítimas que o Holocausto nazista, porém segue invisibilizado. A caça às mulheres designadas bruxas consistiu em uma perseguição política e social que começou no século XV e atingiu seu apogeu nos séculos XVI e XVII principalmente em Portugal, na Espanha, França, Inglaterra.O mais famoso manual de caça às bruxas é o Malleus Malifecarum ("Martelo das Feiticeiras"), de 1486.

O número total de vítimas comprovadas se considerarmos o conceito de Terrorismo, é algo superior e entre 50 mil e 100 mil (O número total de julgamentos oficiais de bruxas na Europa que acabaram em execuções foi de cerca de 12 mil). No passado chegou-se a dizer que teriam sido 9 milhões e até hoje alguns propagam esse número.


Há autoras que dizem que a Caça às Bruxas nunca terminou de existir, estando estruturada nas sociedades patriarcais modernas. Um exemplo são os feminicídios em Juárez, México.


As mulheres que eram muito fortes, muito confiantes, ou muito irritadas, foram condenadas. Reginald Scott declarou, em 1601: "A falha principal das bruxas é que elas são resmungonas". Ele está se referindo a mulheres que respondem de volta aos homens ou que conversam entre si. Uma resmungona foi definida como uma mulher que era "uma mulher incômoda e irritada que porventura quebra a paz pública... e aumenta a discórdia pública". Parte de uma campanha para excluir as mulheres do local de trabalho e das profissões em desenvolvimento, esses estereótipos tornaram mais fácil atacar as mulheres que lutaram contra esta tendência e afirmaram sua independência econômica e social. Foi um crime ser: uma mulher ocupada com a língua, criadora de rimas e apelidos ou de difamatórias baladas lascivas.

Os direitos legais das mulheres estavam sendo corroídos até o ponto em que, por toda a Europa, elas perderam o direito de propriedade ou de realizar qualquer outra atividade econômica, de fazer contratos independentes, ou mesmo, em alguns casos, de viver sozinhas. A ridicularização das mulheres independentes podia assumir a forma de mulheres serem forçadas a usar uma focinheira (ou "freio de resmungona") nas ruas.

Esta campanha cultural para ridicularizar e acusar as mulheres independentes seguiu junto a com exclusão das mulheres do trabalho assalariado. Isto criou uma divisão de gênero dentro da classe trabalhadora ao oferecer aos homens uma melhor chance de encontrar trabalho. Na realidade, o trabalho que os homens assumiram foi, em parte, muitas vezes feito por mulheres, como é o caso do trabalho artesanal feito em casa. Os homens levavam os salários por este trabalhos das mulheres - mesmo por amas-de-leite.

Referindo-se tanto a forma como as autoridades incentivaram esta exclusão das mulheres do trabalho assalariado e ao trabalho doméstico e de produção que as mulheres estavam de fato fazendo, Silvia Federici explica: "Foi a partir dessa aliança entre os ofícios e as autoridades urbanas, juntamente com a contínua privatização da terra, que uma nova divisão sexual do trabalho... foi forjada, definindo as mulheres em termos - mães, esposas, filhas, viúvas - que esconderam sua condição de trabalhadoras, enquanto dão aos homens livre acesso aos corpos das mulheres, ao seu trabalho, e aos corpos e trabalho de seus filhos." Ela afirma que a divisão sexual do trabalho foi uma relação de poder que foi fundamental à acumulação primitiva e ao desenvolvimento do capitalismo. A caça às bruxas apoiou esta opressão cultural e econômica com a ameaça sempre presente de execução para não-complacentes.


A seguir, trecho retirado do livro "Caliban y la Bruja", Silvia Federici:

"Como é possível que a matança sistemática de mulheres não tenha sido abordada mais que como um capítulo anedótico nos livros de Historia? Nem sequer recordo havê-lo dado na escola…
Este é um bom exemplo de como a História a escrevem os vencedores. A mediados do século XVIII, quando o poder da classe capitalista se consolidou e a resistência em grande parte foi derrotada, os historiadores começaram a estudar a caça de bruxas como um simples exemplo de superstições rurais e religiosas. Como resultado disso, até não muito tempo, poucos foram os que investigaram seriamente os motivos que se escondem por trás da perseguição das ‘bruxas’ e sua correlação com a instauração de um novo modelo econômico. Como exponho em “Calibán y la bruja…”, dois século de execuções e torturas que condenaram a milhões de mulheres a uma morte atroz foram liquidados pela História como produto da ignorância ou de algo pertencente ao folclore. Uma indiferença que ronda a cumplicidade, já que a eliminação das bruxas das páginas da história contribuiu para trivializar sua eliminação física nas fogueira da Inquisição. Foi o Movimento de Liberação da Mulher dos anos 70 que reavivou o interesse pela caça das bruxas. As feministas se deram conta de que se tratava de um fenômeno muito importante, que havia dado forma à posição das mulheres nos séculos seguintes, e se identificavam com o destino das ‘bruxas’ como mulheres que foram perseguidas por resistirem ao poder da Igreja e do Estado. Esperemos que as novas gerações de estudantes sim se lhes ensine a importância desta perseguição.

A caça das bruxas na Europa foi um ataque à resistência que as mulheres opuseram à difusão das relações capitalistas e ao poder que haviam obtido em virtude de sua sexualidade, seu controle sobre a reprodução e sua capacidade de curar. A caça de bruxas foi também instrumental à construção de uma ordem patriarcal em que as corpas das mulheres, seu trabalho, seus poderes sexuais e reprodutivos fossem colocados sob o controle do Estado e transformados em recursos econômicos.
Do mesmo modo que os cercamentos dos campos[1] expropriaram as terras comunais do campesinato, a caça de bruxas expropriou os corpos das mulheres, os quais foram assim «liberados» de qualquer obstáculo que lhes impedisse funcionar como máquinas para produzir mão de obra. A ameaça da fogueira erigiu barreiras formidáveis ao redor dos corpos das mulheres, maiores que as levantadas quando as terras comuns foram cercadas.
Apesar das tentativas individuais de filhos, maridos ou pais de salvar a suas parentes femininas da fogueira, não há registros, salvo uma exceção, de alguma organização masculina que se opusesse à perseguição, o que sugere que a propaganda teve êxito em separar as mulheres dos homens. A exceção provêm dos pescadores de uma região basca, onde o inquisitor francês Pierre Lancre estava levando a cabo juízos em massa que conduziram à queima de uma quantidade aproximada de seiscentas mulheres. Mark Kurlansky informa que os pescadores haviam estado ausentes, ocupados na temporada anual do bacalhal. Mas: [Quando os homens] da frota de bacalhão de St.-Jean-de-Luz, uma das mais grandes [do País Vasco] ouviu rumores de que suas esposas, mães e filhas estavam sendo desnudadas, apunhaladas e muitas delas haviam sido já executadas, a campanha do bacalhal de 1609 terminou dois meses antes. Os pescadores regressaram, garrotes em mão e liberaram a um conboio de bruxas que eram levadas ao lugar da queima. Esta resistência popular foi tudo o que fez falta para deter os juízos […] (Kurlansky 2001: 102).

A intervencção dos pescadores bascos contra a perseguição de suas parentas foi um acontecimento único. Nenhum outro grupo ou organizaçao se levantou em defesa das bruxas. Sabemos, porém, que alguns homens fizeram negócios denunciando mulheres, designando-se a si mesmos «caçadores de bruxas», viajando de povo em povo ameaçando delatar as mulheres a menos que elas pagassem. Outros homens aproveitaram o clima de suspeita que rodeava as mulheres para liberar-se de esposas e amantes não desekadas, ou para debilitar a vingança de mulheres às que eles haviam violado ou seduzido." [1] cercamento dos campos: processo pelo qual se instituiu o Capitalismo e a Revolução Industrial, por meio do qual homens no Poder produziram o êxodo de trabalhadores do campo para as cidades, forçando a vender sua força de trabalho e com isso, a formação de um proletariado e um exército de reserva. No liberalismo se diz que o "Homem" é "livre" e as relações entre estes, portanto o camponês que foi pela força expropriado das suas ferramentas de trabalho, da sua terra e da sua autonomia, é forçado por um poder político a 'consentir' em trabalhar para aqueles que detém o Capital, no caso o burguês. Nesta época houve diversas revoltas contra o cercamento, que foram conhecidas como as insurreições camponesas modernas, onde a figura de Nedd Ludd, uma figura mítica, simbolizava o aspecto sem líderes e insurrecional dessa resistência.


Adrienne Rich em "Sobre Mentiras, Segredos e Silêncios", diz:

"Antes que existira ou pudesse existir qualquer classe de movimento feminista, existiam as lesbianas, mulheres que amavam a outras mulheres, que recusavam cumprir com o comportamento esperado delas, que recusavam definirem-se em relação aos homens, aquelas mulheres, nossas antepassadas, milenares, cujos nomes não conhecemos, foram torturadas e queimadas como bruxas."


fontes:

Livro Caliban y la bruja para baixar, http://www.traficantes.net/index.php/content/download/24695/236104/file/Caliban_y_la_bruja.pdf

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